Abandonado, galpão da Cinemateca Brasileira pega fogo e põe em risco acervo já fragilizado – Cinemascope

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Com a colaboração de Bruno Tavares

Uma tragédia anunciada, premeditada. Nesta quinta-feira, 29, o galpão da Cinema Brasileira na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, foi atingido por um incêndio. Ainda não se sabe a extensão dos danos, mas é muito provável que, mais uma vez, componentes importantes do acervo foram comprometidos. Em 2016, o mesmo local havia sido atingido por outro incêndio que levou à destruição de 731 títulos. Destes, apenas 461 possuíam cópias de segurança. Obras que contam a história do cinema nacional e que foram perdidas pela falta de investimento em manutenção e cuidado. Em 2020, outra parte foi afetada após um temporal atingir a região e alagar o galpão, danificando 113 mil cópias de DVDs. Mais uma vez, nossa história e memória sendo arrancada de nós por desastres evitáveis.

Galpão da cinemateca pegou fogo na tarde desta quinta-feira.

Não faz muito tempo, falamos aqui sobre o imenso descaso do governo para com a Cinemateca. Mais do que isso, temos falado constantemente do desmonte da Cultura como um todo. Com isso, ainda que devastador, não nos surpreende que algo assim tenha ocorrido. Qualquer pessoa que acompanhe de perto o caso da Cinemateca já esperava por uma nova tragédia. Infelizmente, ela chegou. Não se sabe ainda qual a proporção dos danos dessa vez, mas, independentemente de quais sejam, já são irreparáveis. O galpão conta com uma área de mais de 6 mil metros que abriga parte do arquivo, o restante fica no bonito prédio localizado na Vila Mariana. Esse não foi atingido. Mas até quando?

Avisos constantes de uma tragédia anunciada

A Cinemateca Brasileira é casa do maior acervo audiovisual da América Latina: são 250 mil rolos de filme, cerca de 30 mil títulos, além de um vasto acervo de documentos e registros relacionados à história do cinema. Sabe-se que arquivos em filme, especialmente aqueles em nitrato de prata, necessitam de cuidados especiais justamente por serem extremamente inflamáveis e produzirem uma chama que não pode ser extinta com água ou pó químico. Para isso, é necessário que exista climatização e inspeções constantes no ambiente. Porém, como fazer isso se falta corpo técnico e até mesmo energia elétrica?

Em junho de 2020, a brigada de incêndio, que é contrata por uma empresa terceirizada, deixou de trabalhar e o gerador responsável por manter a energia caso a luz acabe não tinha sequer combustível para funcionar. Devendo R$ 450 mil à Enel e correndo o risco de ter a energia cortada, a Cinemateca estava a ponto de morrer. Ainda naquele mês, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por meio da assessoria do deputado Carlos Giannazi,  publicou uma nota avisando que o corte de energia podia provocar um incêndio. Não era segredo para ninguém que a situação do local, cada vez mais precária, era uma bomba-relógio e algo assim poderia acontecer a qualquer momento.

Em agosto, foi anunciado que todos os funcionários seriam demitidos e a Associação Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), responsável pela instituição, entregou as chaves a secretaria especial de Cultura do governo federal. À época, a Acerp informou que não tinha fundos para manter o corpo técnico da Cinemateca, que constituía em 41 funcionários altamente especializados. Ainda segundo a Acerp, a Justiça negou o pedido para que o governo pagasse os R$ 14 milhões pré-aprovados de orçamento para a instituição. Em vez disso, o Secretário de Cultura, Mário Frias, juntamente ao Ministro Marcelo Álvares Antônio anunciaram que removeriam a Cinemateca Brasileira de São Paulo e a levariam para Brasília.

No entanto, conflitos legais impediram tal manobra. A gestora atual da Cinemateca, a Fundação Roquette Pinto, era a responsável por coordenar as verbas destinadas à instituição e a própria escritura do local determinada que ela seja paulistana, uma ação pensada desde sua criação justamente para evitar que ela fosse colocada no meio de embates políticos e terminasse sendo prejudicada. Infelizmente, apesar desse cuidado, isso aconteceu.

É pedir muito que se faça o mínimo?

Honestamente, hoje não vejo qual será a saída ou solução para a Cinemateca Brasileira. Enxergo um jogo de empurra de lá para cá sobre quem teve responsabilidade, prevejo teorias da conspiração e a divulgação de informações falsas e infundadas, cortinas de fumaça e todo tipo de artimanhas para desviar o foco da questão. Com o país ainda mergulhado em uma pandemia com mais de 553 mil mortes e 14,8 milhões de desempregados, não é difícil imaginar que, após o choque, o assunto irá morrer e mais uma vez a Cinemateca será relegada ao esquecimento. Nesse momento, não sei dizer como e se sairemos desse cenário e se podemos esperar que o prédio volte a abrir suas portas ou algum cuidado para com o acervo seja retomada.

Sabemos, porém, o que deveria ter sido feito. O mínimo do mínimo necessário para que algo assim não ocorresse. Como disse nosso caro Donny Correia em sua premonitória carta aberta ao secretário Mário Frias, publicada em julho de 2021, “o senhor é artista, não é? Deve saber que num acervo de mais de 200.00 rolos, dormem obras raras à memória de um povo (…) Creio que cabe ao secretário de cultura fazer um bom serviço pelo Brasil em todos os âmbitos, correto? Então, a Cinemateca será o próximo Museu Nacional? O sr. prefere passar à História como aquele que destruiu o pouco que restou de nossa memória artística quando poderia ter mostrado ao seu “cercadinho” que nós é que estávamos errados ao achincalhá-lo? Eu gostaria de estar errado, sim. Eu e todos e todas os/as colegas das artes. Nós sabemos que “a arte ainda vai salvar o mundo” (procure no Google), assim como a saúde, a educação, a habitação e todos os etcs com os quais deve contar uma nação sem ter de lamber botas de militares sem disciplina. Cabe ao senhor escolher, sr. secretário. Digo, apenas, que neste momento, o futuro nunca ouviu falar em Mario Frias”.

Sem repasses do Governo Federal e não podendo ser cuidada pelo Estado, o local seguiu sem manutenção, abandonado e no aguardo que uma nova inundação ou incêndio viesse a destruir seu já fragilizado acervo. Nessa pequena guerra infantil, o único a perder foi o cinema nacional. Eis o resultado de um governo incapaz, incompetente, ineficaz e sem interesse em preservar a memória de seu próprio povo e país. Eis também a falta de maior envolvimento da sociedade com seus patrimônios, exigindo a proteção dos mesmos e a destinação correta de financiamento para eles. Quando caímos na falácia de acreditar que Cultura não serve para nada, que isso é “só entretenimento”, colocamos em risco nossa história e identidade. Como cinéfilos e entusiastas do cinema brasileiro, observar essa situação traz um misto de tristeza e revolta. Quantos mais avisos serão necessários? Quanto mais precisaremos perder? A Cinemateca Brasileira não é do governo nacional, ela é do povo. Ela é nossa. É do nosso cinema. Sem um governo que faça o mínimo, cabe a nós, então, lutar por ela.

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