Lembrança de José Arthur Giannotti

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Em seu texto Um Seminário de Marx (em Sequências Brasileiras, Cia das Letras, 1999), Roberto Schwarz observa a respeito da participação de José Arthur Giannotti no famoso grupo de leitura de O Capital:

“A intensidade intelectual do seminário devia muito às intervenções lógico-metodológicas de Giannotti, cujo teor exigente, exaltado e obscuro, além de sempre voltado para o progresso da ciência, causava excitação. A própria ala dos cientistas sociais se tinha compenetrado da missão fiscalizadora do filósofo, de quem esperávamos o esclarecimento decisivo, a observação que nos permitiria subir a outro plano, ou escapar à trivialidade. Superstições à parte, a vontade de dar um grande passo à frente, e o sentimento de que isso seria possível, estavam no ar. Por Giannotti e Bento Prado interpostos, o estudo de Marx tinha extensões filosóficas, que nutriam a nossa insatisfação com a vulgata comunista, além de fazerem contrapeso aos manuais americanos de metodologia empírica, que não deixávamos também de consumir. Apesar de desajeitada, a tensão entre esses extremos foi uma força do grupo, que não abria mão do propósito de explicar alguma coisa de real, e nesse sentido nunca foi apenas doutrinário”. (p.91).

José Arthur Giannotti morreu ontem, aos 91 anos. Seu nome foi cercado de uma aura mítica no ambiente intelectual e acadêmico brasileiro e, sobretudo, paulistano e uspiano.

A presença, como professor do curso de filosofia da USP, era intimidante. A postura geral da Filo-USP – a de nunca baratear a filosofia em nome de um certo populismo em relação aos alunos – encontrava nele um caso radical. O fato é que, naquele final de anos 1970, começo dos 1980, já como fruto da política de educação da ditadura, levas de alunos chegavam à universidade com sérias deficiências de formação no curso secundário.

Como manter o nível de um curso universitário prestigiado como aquele? Era uma terrível questão. Naquele tempo, uma das políticas da Filo-USP era fazer com que professores já consagrados e bem situados na hierarquia acadêmica, dessem aulas aos calouros. Não me lembro se tive um curso inteiro com Giannotti, ou foram apenas aulas avulsas, como professor convidado de um curso alheio, prática normal naqueles dias.

Para nós era ótimo ter aulas com os figurões. Para eles, devia ser um parto, com suas dores e recompensas.

Lecionando Descartes, Marilena Chauí desesperava-se e empenhava-se na formação dos alunos recém-chegados; Paulo Arantes ironizava; os então jovens Renato Janine Ribeiro e Olgária Matos buscavam no diálogo formas de aproximação. Maria Lúcia Cacciola e Rolf Kuntz buscavam incutir as primeiras noções de filosofia política através da leitura de textos.

O curso de filosofia é – ou era – em boa medida um longo exercício de interpretação de textos clássicos, como destaca Paulo Arantes em Um Departamento Francês de Ultramar.

E Giannotti?

Giannotti dava aulas como se estivesse diante de uma plateia no anfiteatro do Collège de France. Os alunos que se virassem para acompanhar a miríade citações – em alemão ou grego – e o raciocínio lógico intrincado. Acompanhar Giannotti era um desafio e, como tal, estimulante para alguns, desesperador e no limite desmotivador para a maioria.

Essa fama de difícil sempre o acompanhou, como se vê pela citação acima de Roberto Schwarz, perfil que já dispunha desde os tempos de jovem filósofo e participante do Seminário Marx.

Ok, Origens da Dialética do Trabalho e Trabalho e Reflexão são duas pedreiras. Porém indispensáveis a quem deseja aprofundar- se na compreensão do pensamento marxista. Sua introdução ao Tractatus Logicus Philosophicus é mais extensa e tida como mais complexa que o próprio Tractatus de Wittgenstein. São textos que não se contentam com a paráfrase ou a explicação do pensamento alheio. Expõem as próprias ideias do filósofo, a partir das ideias dos outros. São originais. A última obra de Giannotti, publicada em 2020, confronta os pensamentos de Wittgenstein e Heidegger.

Intelectual difícil e exigente, Giannotti teve participação pública das mais ativas. Assinou o ato de fundação do PT, mas alinhou-se ao PSDB – no tempo em que o partido era social-democrata. Não hesitou em detonar os dois partidos em entrevistas posteriores, apesar de ter mantido a amizade de toda a vida com Fernando Henrique Cardoso. Participou de um dos governos FHC como conselheiro da pasta de Educação.

Não tinha papas na língua em suas polêmicas públicas. Lembro de quando houve uma briga entre Paulo Francis e Caetano Veloso e um jornal – Folha, JB? – perguntou a personalidades sobre qual dos contendores fazia a cabeça do entrevistado. Giannotti respondeu que nenhum dos dois era digno de fazer sequer os seus pés, quanto mais a cabeça.

Não sei o que pensava do Brasil atual. Gostaria de conhecer sua análise sobre como nos metemos no infindável pesadelo atual. Seria por certo complexa e iluminadora.

Como todo mundo, também o filósofo estava sujeito a erros. Foram entrevistá-lo depois das eleições de 2018 e disse que as “forças ocultas”, ao assumir o poder e virem à luz do dia, seriam obrigadas a se civilizar. Estava errado. Hoje a avaliação seria outra por certo, porque, se o filósofo erra, também se obriga a voltar atrás e reavaliar. É dever de ofício.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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