Um aperitivo do Festival do Rio no Telecine

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Tenho acompanhado este aperitivo do Festival do Rio pelo aplicativo do Telecine. Um filme por dia. Fica 24h no ar e depois sai. Já passaram por lá Druk – Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg, Caros Camaradas ! Trabalhadores em Luta, de Andrey Konchalovskiy, e Slalom – Até o Limite, de Charlène Favier. O primeiro eu já conhecia e até escrevi uma crítica. Leia aqui.

Os outros dois foram novidades. Caros Camaradas conta uma história oculta da antiga União Soviética. Há uma greve na fábrica de uma cidade e as manifestações são duramente reprimidas. Dezenas de mortes entre os operários. Mas tudo é mantido sob segredo e os corpos são enterrados de forma clandestina.

Estamos em 1962, Stálin está morto, seus crimes já foram denunciados no 20º Congresso do Partido Comunista e a URSS vive agora sob a liderança de Nikita Kruschev. Uma mulher, Lyudmila (Julia Vysotskaya), membro do comitê do Partido na cidade, é ferrenha defensora de Stálin e de um tratamento duro com os grevistas. No entanto, a progressiva percepção do que se passou, e o envolvimento de uma filha nas manifestações, faz com que mude de ideia.

Filmado em preto e branco pelo veterano Konchalovskiy, o filme não ignora sua vertente documental. Sua maior aspiração é exumar esse episódio reprimido, trazê-lo à luz do dia e denunciar as sociedades fechadas que, em nome da Realpolitik, jogam atrocidades para baixo do tapete. Um belo filme.

O outro, Slalom – Até o Limite, traz a ação para o campo esportivo. Lyz Lopez (Noée Abita) é uma jovem atleta de esqui, treinada por um técnico de renome, o ex-esquiador Fred (Jérémie Renier). Quem gosta do cinema dos irmãos Dardenne conhece este nome. Renier agora é ator maduro, em torno de seus 40 anos, e faz um ótimo trabalho no papel de Fred.

Ele é duro, exigente, mas também muito sedutor. Sua relação com a pupila adolescente é o que hoje se chama de abusiva. Dirigido por uma mulher, Charlène Favier, Slalom mescla a atmosfera típica dos filmes de esportes à questão do abuso de menores.

O resultado é muito bom. Nada parece ali colocado de modo artificial. Lyz é, de fato, levada ao limite do desafio físico e técnico que se exige de qualquer candidata a campeã. Ao mesmo tempo, sofre com as incertezas da idade, dos problemas físicos do crescimento à perda da virgindade. Fred é uma espécie de Pigmaleão, que cobra suas lições com a submissão total da protegida. No desfecho, uma liberação feminina típica dos tempos de #MeToo.

Renier é sempre muito bom. A surpresa é a atuação da novata Noée Abita que, com muita expressão e poucas palavras, transmite ao espectador os sentimentos contraditórios que existem dentro de si. Bonito filme também.

Hoje é dia de outro título muito aguardado, O Mauritano, de Kevin Macdonald, com o carismático ator Tahar Rahim. Conta a história verídica de um homem injustamente preso durante dez anos.

No telecineplay.com.br

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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