Duas lágrimas por Janet Malcolm (1934-2021), expoente do jornalismo literário

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A jornalista e escritora Janet Malcolm morreu quinta-feira, aos 86 anos. Nascida em Praga, tornou-se um dos nomes principais do assim chamado “jornalismo literário”. Admirava seu estilo e, em especial, sua coragem ao abordar temas difíceis, tanto no campo da ética quanto no da liberdade de expressão jornalística.

Seguia seu trabalho desde antes de eu mesmo me tornar jornalista. Num tempo que já vai longe, minha área de atuação era a psicanálise e li, com interesse, seu polêmico texto sobre os arquivos de Freud.

Resenhei alguns dos seus livros para o jornal. Abaixo, dois deles, à guisa de homenagem a essa autora.

Anatomia de um Julgamento

Janet Malcolm abre seu Anatomia de um Julgamento – Ifigênia em Forest Hills com uma cena descritiva de tribunal. O advogado de defesa diz que sua cliente vai usar da palavra. O procedimento quebra um momento de monotonia, em que tudo parecia já ter sido dito. Caso rumoroso, midiático. Mazoltuv Borukhova, uma médica de origem uzbeque de 35 anos, estava sendo acusada de assassinato.

Janet, escritora famosa de livros como O Jornalista e o Assassino e A Mulher Calada (sobre Sylvia Plath, que está agora sendo relançado pela Cia das Letras), traça um retrato da ré: “mulher baixa e magra, de aparência peculiar. Seu traços eram delicados e a pele tinha uma palidez cinzenta”. Prossegue, com a descrição das roupas (paletó preto masculino e uma saia preta, que ia até o chão) e da atitude da acusada, que, durante a maior parte do tempo, mantinha postura altiva ou tomava notas num caderninho.

O detalhismo revela-se parte da estratégia do texto. Janet descreve o julgamento como um ritual – um teatro, em suma. Nesse palco, o veredicto dependerá talvez menos das evidências apresentadas que do combate retórico entre promotor e advogado de defesa. E, também, das aparências, em particular de quem está sendo acusado. Daí a suposição de que tanto o tipo físico de Borukhova, quanto seus trajes e atitudes tenham influenciado seu destino, traçado pelo corpo de jurados. Borukhova não fazia questão de se apresentar como mulher simpática, ou arrependida, ou injustiçada. Parecia, no fundo, indiferente ao que ali se passava e superior aos que a julgavam.

Mazoltuv (ou Marina) Borukhova não estava sendo acusada sozinha. Junto com ela havia o autor material do crime, Mikhail Mallayev, que disparara duas vezes e ferira de morte o ortodontista Daniel Malakov, ex-marido de Borukhova. Havia testemunhas do crime. E evidências de ligação entre Mallayev e Borukhova, que haviam trocado nada menos de 91 telefonemas nas vésperas do crime. As ligações estavam registradas nos celulares, o que parecia configurar o homem como autor do crime e a mulher como mandante. O motivo estaria na guarda da filha de Borukhova e Malakov, a garota Michelle, de cinco anos, que vivia com o pai. Após a separação, a mãe perdera a guarda.

Todos os envolvidos – a vítima, os dois acusados e suas famílias – pertenciam à seita judaica bucarana, cuja história se entranha num emaranhado de versões e lendas. Seria uma das tribos perdidas de Israel e sobreviveu a dois mil anos de opressão sob domínios persa, mongol, árabe, do império russo e, por fim, soviético. Borukhova nascera no Uzbequistão, na antiga União Soviética, e chegara aos Estados Unidos em 1997, onde estudara medicina, se formara e passara a exercer. Apresentava ainda, na observação de Janet Malcolm, um pequeno sotaque em seu inglês ligeiramente imperfeito.

Todos esses detalhes são importantes para a compreensão do caso. São estrangeiros emigrados nos Estados Unidos. Fazem parte de uma comunidade fechada, na qual se cozinham simpatias e desafetos. Existem oscilações linguísticas, algumas decisivas. Por exemplo, uma das provas apresentadas no tribunal era uma fita de áudio, registro de uma conversa entre Borukhova e Mallayev, falando em bucárico e russo. A conversa é banal, mas as duas últimas frases chamam a atenção do júri: “Você vai me fazer feliz?”, pergunta Mallayev, ao que Borukhova responde “sim”. Mas como o áudio não estava nítido, outra tradução foi proposta: “Você está descendo?”, ao invés de “você me fará feliz?”. Em uma alternativa, aparece a sugestão do envolvimento amoroso; em outra, apenas se pergunta se a interlocutora está saindo de um automóvel.

Nesse nível de sutilezas e equívocos se constrói o veredicto de um caso em que não existe prova material mas apenas indícios. Até o final Borukhova proclamou sua inocência, e foi condenada à prisão perpétua, sem direito a condicional. O que atende pelo nome de justiça não passa, de acordo com Janet Malcolm, de uma competição entre versões concorrentes, a da defesa e a da promotoria. A isenção completa é mera ficção. Por mais que haja escolhas e impugnações na formação de um corpo de jurados, ele sempre terá uma tendência, pró ou contra o réu. O mesmo se pode dizer do juiz.

No caso de Borukhova havia uma motivação clara – a disputa pela criança, explorada o tempo todo por Leventhal, o promotor. A condenação, segundo a narrativa de Janet, passa menos pela apresentação de provas irrefutáveis (mesmo porque elas não existiam, neste caso) que pela construção de um culpado. “Era tão inevitável que Borukhova se vingasse de Daniel pela perda de Michelle quanto Clitemnestra se vingaria de Agamêmnon pela perda de Ifigênia”, escreve. Esse peso mítico se abateu sobre Borukhova. Assim como Clitemnestra assassinou Agamêmnon por este haver oferecido Ifigênia em sacrifício a Artêmis, Borukhova teria matado, com seu cúmplice, o homem que a privara de Michelle. Entre as versões concorrentes – a assassina vingativa ou a médica dedicada e gentil – prevaleceu a da acusação.

É quase uma redundância dizer que, ao esmiuçar um caso judicial, Janet Malcolm toca também em algumas de suas já assumidas obsessões profissionais. Entre elas, a principal, a impossibilidade de ser completamente neutro no exercício do ofício jornalístico; ou idealmente justo, no caso dos homens de toga. Somos sempre vítimas de nossas propensões e o melhor que podemos fazer é estar consciente delas, para que possamos enfrentá-las. Na medida do possível.

Na longa entrevista concedida (por e-mail) a Katie Roiphe, e publicada na Paris Review, presente no livro à guisa de posfácio, Janet fala de um livro fundamental em sua formação e visão do mundo – Orientalismo, de Edward Said, e sua ideia de que não existe o observador imparcial, “que toda narrativa é modulada pelo viés do narrador”. Deveríamos entender essa circunstância do nosso conhecimento, de uma vez por todas.

O Jornalista e o Assassino

A primeira frase de O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm, soou como uma sentença inapelável nas redações quando o livro foi lançado em 1990: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A condenação não vinha de fora – Janet Malcolm é, ela própria, escritora e jornalista, com vasto currículo na revista New Yorker, além de autora de vários livros, com temas tão variados quanto a vida de Tchekov e os arquivos secretos de Freud. É autora de sucesso. O Jornalista e o Assassino, agora relançado no Brasil, vem enriquecido de dois posfácios, um da própria autora e outro do diretor de redação do jornal A Folha de S. Paulo, Octávio Frias Filho.

Qual seria o “fazer” jornalístico sobre o qual recai a sentença de Janet? Simplesmente a prática mais comum da profissão – a entrevista. Ela entende que a relação entre repórter e fonte é sempre assimétrica, e com grande prejuízo para a segunda parte. Afinal, tanto jornalista como entrevistado querem alguma coisa um do outro, como sabe o mais ingênuo dos focas. Na situação mais simples, um deseja a notícia, uma história em primeira mão que poderá lhe ser de grande valia na carreira. O outro aspira a certa notoriedade, que apenas a divulgação de suas ideias e de seu rosto em veículo de grande expressão pode lhe garantir.

É um jogo, no qual ambos têm tanto a lucrar como a perder. Mas, no entender de Janet, a fonte é, invariavelmente, a parte fraca na relação. Escreve, sem rodeios: “Ele (o jornalista) é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em se tornar tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece – a sua própria dura lição.”

Ou seja, quando o produto da conversa vem a público, é muito comum a fonte descobrir que a relação mantida com o jornalista era baseada em um engodo. Que este não teve, em qualquer momento, a mínima intenção de divulgar o ponto de vista da fonte para a sua história. Pelo contrário, o jornalista sempre teve em mente divulgar a sua própria impressão sobre determinado fato. Manteve a relação em termos amistosos apenas enquanto dela necessitava para apurar determinados elementos da história. Depois, fim de conversa. Ao escrever, torna-se a parte dominante e impõe a sua própria versão. Para a fonte, seduzida durante o tempo das entrevistas, esse comportamento pode parecer o de um traidor.

Qualquer jornalista que tenha algum tempo na profissão sabe por experiência própria que não são poucos os desencontros nessa relação muito particular. Muitas vezes, ao verem ideias que julgam distorcidas publicadas em letras de imprensa, os entrevistados exclamam: “Mas eu não disse isso, alteraram minhas palavras”. Por isso, jornalistas experientes fazem questão de gravar entrevistas, sobretudo quando tratam de matéria polêmica. Mas essa providência tecnológica apenas atenua o problema, pois ninguém publica nada sob forma literal. Por uma série de questões técnicas, os depoimentos devem ser editados. E a edição sempre poderá ser tachada de tendenciosa. E às vezes é mesmo.

O livro de Janet Malcolm não se baseia em abstrações. Trata de um caso real, e bastante doloroso. Um crime terrível, na verdade, o assassinato de uma mulher grávida e de suas duas filhas a golpes de bastão e facas. O principal suspeito, e que acabou condenado, era o próprio marido da vítima, o médico Jeffrey MacDonald. Na época (1970) a serviço do exército norte-americano, MacDonald alegou que a casa fora invadida por bandidos e ele próprio saíra ferido do assalto. Na verdade, apresentava ferimentos muito leves e sua tese nunca pôde ser comprovada. No entanto, foi absolvido pelo tribunal militar.

Quando aguardava novo julgamento, foi procurado pelo jornalista Joe McGinnis para uma entrevista. MacDonald gostou tanto do repórter que lhe propôs um arranjo: franquearia sua intimidade e mesmo os bastidores da defesa para que McGinnis escrevesse um livro expondo o seu ponto de vista. Dividiriam a renda do livro e isso ajudaria a custear a defesa. Conviveram durante quatro anos em camaradagem e aparente amizade. Quando o livro – Fatal Vision, calhamaço de 700 páginas – saiu, em 1983, McDonald sentiu-se traído. Longe de esposar sua causa, o McGinnis o apresentava do início ao fim como perigoso psicopata.

Condenado à prisão perpétua no segundo julgamento, McDonald resolveu processar McGinnis pelo livro, sustentando que suas falas foram distorcidas e o autor abusara de sua boa-fé. No primeiro julgamento McDonald contra McGinnis não houve unanimidade entre os jurados. Antes que o segundo ocorresse, as partes entraram em acordo e McGinnis teve de pagar 325 mil dólares a McDonald para encerrar a pendência.

O caso é explosivo porque levanta a dúvidas sobre a liberdade de expressão e sobre a ética jornalística – e de como uma pode contradizer a outra. A acusação de McDonald baseava-se em que sua boa-fé no jornalista fora iludida. O jornalista o fizera crer que trabalhava numa versão que seria favorável ao acusado quando tinha coisa muito diferente em mente. A defesa de McGinnis baseia-se na liberdade de expressão. O autor teria compromisso mais forte com a verdade dos fatos e do que com sua fonte. Se manteve o relacionamento usando de atitudes ambíguas, foi no interesse do livro. E da verdade, que deve ser conhecida em benefício do público.

Ora, acontece que a “verdade”, para Janet Malcolm, não é um termo tão óbvio como ingenuamente se acredita. A verdade, para alguém tão influenciada pela psicanálise, é algo de impossível, no limite. Trabalhamos com versões e podemos escavar tão fundo quanto quisermos, sem jamais atingir a realidade objetiva, a verdade de um fato, e mais ainda de fatos controversos como um crime jamais confessado pelo suposto assassino. A própria Janet se debruçou sobre casos semelhantes de conflitos de versões ao se interrogar, por exemplo, sobre os diferentes relatos sobre a cena da morte de Tcheckov. O que teria acontecido, de fato? Ninguém sabe.

Mais ainda: ela própria havia sido processada no passado por uma situação semelhante à que analisa em O Jornalista e o Assassino. Em Nos Arquivos de Freud, descrição da luta pela posse da correspondência entre Sigmund Freud e seu amigo e colega Wilhelm Fliess, Janet entrevista um dos curadores das cartas, Jeffrey Masson, que, posteriormente, a processa, acusando-a de atribuir a ele declarações infundadas. Desse imbróglio psicanalítico Janet foi absolvida. Mas muita gente (McGinnis entre eles) insinuou que escrever O Jornalista e o Assassino, seria, para ela, uma espécie de exorcismo desse processo anterior.

Janet não evita a questão e a aborda em seu posfácio. Admite que, por mais que se defenda, ficará sempre com a mácula de haver caluniado Masson, mesmo que isso não tenha acontecido. Por outro lado, apesar do processo e da reparação pecuniária, o relato definitivo do caso McDonald está estabelecido no livro de McGinnis e não há força que possa apagá-lo. O desmentido nunca tem a força denúncia, e, por isso mesmo ela entende que se deva lidar com tanta delicadeza e rigor com o que dizem os entrevistados aos jornalistas.

Apesar de vivermos num mundo de versões, temos a obrigação de cuidar para que elas sejam tão próximas quanto possível de uma intangível verdade. Essa observação é particularmente importante em nossa época, em especial quando o jornalismo literário ganha importância nas redações e entre o público. Usar técnicas de romance para escrever uma matéria é uma coisa, e isso pode ser ótimo; tornar-se ficcionista é algo que um jornalista não pode se permitir. Seu compromisso, por fluido que seja o termo, é com algo chamado realidade. E, mesmo que ela se esconda atrás de inúmeras versões, insuficientes e contraditórias, sua obrigação é procurá-la obsessivamente. Não interessa se o graal existe ou não; é preciso buscá-lo.

O Jornalista e o Assassino não se propõe a resolver esses impasses éticos. Provavelmente não comportam uma solução perfeita. A importância do livro está em levantá-los e colocá-los como espelho diante da comunidade jornalística. Afinal, como diz Janet Malcolm, os mais sensatos sabem que o melhor que podem fazer ainda não é o suficiente. E os outros fingem que não existe problema algum e, se existia, eles já o resolveram.

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