Começa a Festa do Cinema Italiano 2021

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‘Volare’, filme de Gabriele Salvatores

Começa hoje o 81/2 – Festa do Cinema Italiano. São cerca de 20 filmes da península, a maioria inéditos no Brasil. Entre os dias 17 a 27 de junho, poderão ser acessados diretamente no site do festival (www.festadocinemaitaliano.com.br) e por meio da plataforma Looke (www.looke.com.br); para assistir é necessário realizar um cadastro gratuito no site.

Meus destaques: Volare, de Gabriele Salvatores, Irmãs Macaluso, de Emma Dante, Fábulas Sombrias, dos irmãos Fábio e Damiano D’Innocenzo, e A Vida solitária de Antonio Ligabue, de Giorgio Diritti (este também estreia no site Cinema Virtual).

Volare traz de volta o encanto de Salvatores, que ficou mundialmente conhecido por seu Mediterrâneo, ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 1991. Este Volare joga no mesmo tom agridoce do diretor. Agora se trata do reencontro (ou melhor, encontro) de um pai relapso e um filho que apresenta algumas particularidades psicológicas, digamos assim.

O título em português aposta na canção napolitana que foi também um sucesso global nos distantes anos 1960. O título italiano fala de outra canção, Tutto il mio folle amore – Todo o meu louco amor, também saída da lavra de Domenico Modugno, um nome que talvez pouco ou nada signifique para as novas gerações, mas imensamente conhecido naquele tempo.

Há um dado aí – uma camada, como se diz – a ser considerado. Modugno trabalhou com Pasolini no estupendo episódio de Capricho à Italiana (1967) chamado Che Cosa sono Le Nuvole?. Este filme dialoga com a commedia dell’arte e com Shakespeare, fazendo uma encenação cômica com marionetes (humanas) da tragédia Otelo, destinada a um público popular. Entre os “bonecos”, o indizível Totò e seu parceiro Ninetto Davoli. Modugno faz o papel de motorista de um caminhão de lixo, encarregado de jogar fora os restos “mortais” dos dois bonecos, estragados pela agressão de um público revoltado com o desfecho da peça. Totò faz Iago e Ninetto, o personagem título, o mouro atormentado pelos ciúmes de Desdêmona (Laura Betti). O que canta Modugno enquanto dirige o caminhão rumo ao depósito de lixo? Tutto il mio Folle Amore – música sua e letra de…Pier Paolo Pasolini.

Afastei-me um pouco de Volare, mas apenas para melhor vê-lo à luz do filme de Pasolini porque o personagem paterno, Willy (ótimo Claudio Santamaria) é uma espécie de clone de Domenico Modugno. Um cover, na verdade, que ganha a vida exibindo-se nos Bálcãs, em casamentos ou shows meia boca à beira da estrada.

É nesse road movie que o filho problemático e o pai desnaturado acertarão contas. À maneira tortuosa que a situação deixa antever, mas nunca despida daquele afeto de fundo, típico dos filmes de Salvatores. Uma bela viagem, sem dúvida.

Irmãs Macaluso, de Emma Dante, engata uma narrativa em três tempos, que retrata a vida das cinco irmãs, da infância à velhice. Uma história difícil, às vezes traumática, conduzida em estilo elíptico, cheio de personalidade autoral.

Também pessoal são estas Fábulas Sombrias, dos irmãos Fábio e Damiano D’Innocenzo, um retrato do mal-estar na sociedade italiana. Nem tanto narrativo, mas filme de impressões, em que se tem sempre a sensação de que algo de mal está para acontecer. Os personagens são membros de famílias moradoras nos subúrbios de Roma. Bom domínio do “clima” através da forma.

Já A Vida Solitária de Antonio Ligabue, de Giorgio Diritti, é um biopic de feitio mais tradicional, nem por isso menos eficaz. Conta a história do pintor suíço Ligabue (1899-1965) diagnosticado como doente mental, internado em manicômio, e que, com muita tenacidade, consegue se estabelecer como artista na Itália. O ator Elio Germano ganhou o Urso de Prata em Berlim pela interpretação do papel-título.

São ótimos filmes, que mostram um panorama do atual cinema de autor na Itália.

Resta dizer que o cinema mais popular também se faz presente. A comédia romântica Bangla é uma amostra. Rendeu a seu diretor (e protagonista), o italiano de origem indiana Phaim Bhuiyan, o Troféu David di Donatello, de melhor diretor estreante. Ele faz o jovem filho de indianos que se apaixona por uma garota de antiga cepa italiana. Como ela pertence a uma família de costumes avançados, a história não contém de maneira explícita os clichês (verdadeiros) de rejeição europeia a outras culturas. Nem por isso as coisas serão fáceis para o jovem Phaim. Filme bacana, que, como toda boa comédia, fala de outras coisas em suas entrelinhas.

Resta dizer que este ano o festival apresenta o Foco Alice Rohrwacher, homenagem a uma das realizadoras italianas mais prestigiadas da atualidade. Exibe importantes filmes de sua trajetória, como As Maravilhas, que recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em 2014, e a consagrou internacionalmente. Ela faz um cinema formalmente inventivo, perturbador e bastante focado no mal-estar contemporâneo – que já existia antes da pandemia, imagine agora.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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