‘Cine Marrocos’, a arte e os sem-teto

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Joia dos anos de ouro da Cinelândia paulistana, o Cine Marrocos decaiu, virou ruína, foi ocupado por moradores sem-teto até virar palco do magnífico filme sobre a questão urbana que leva seu nome.

Cine Marrocos, dirigido por Ricardo Calil, representa uma novidade radical em relação ao recorrente tema da desigualdade social brasileira e seus efeitos deletérios. Não se limita a registrar o cotidiano de um imóvel ocupado por uma parte carente da população brasileira. Transforma o ambiente em local de encenação, em que velhos filmes, que podem ter feito parte da programação do cinema, são revividos tendo os próprios ocupantes como intérpretes.

Numa das cenas mais dramáticas, uma das moradoras reinterpreta a cena em que Norma Desmond (Gloria Swanson) deixa sua casa para ser presa sob a luz dos holofotes em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), de Billy Wilder. O filme, de 1950, evoca a decadência de uma velha atriz do cinema mudo, que se nutre de suas lembranças e frustrações enfiada numa mansão semideserta, sob os olhos de seu mordomo e chofer, vivido pelo grande Erich Von Stroheim.

Há um elo interessante nesse ponto. Stroheim, ator e diretor de origem austríaca, esteve em São Paulo em 1954, convidado do Festival de Cinema que comemorou o 4º centenário da cidade. A sede do evento ultra glamuroso não era outra senão o Cine Marrocos nos dias do seu auge e esplendor.

Essa festa e fausto são lembrados através de cinejornais da época registrando outras presenças ilustres como as de Errol Flynn, Jean Fontaine, Ann Miller, etc. Hollywood já predominava no cenário cinematográfico brasileiro, mas também vieram personalidades do cinema europeu e mesmo asiático, com atrizes japonesas.Uma delas tropeça num dos degraus do Marrocos e, ao perder o sapato, deixa entrever “o delicado pezinho oriental”, nas palavras do locutor da época.

Outros filmes e peças são encenados pelos moradores, como Júlio César, de Shakespeare, no famoso monólogo de Marco Antônio no enterro do imperador assassinado. As imagens são do filme de Joseph Mankiewicz com Marlon Brando interpretando o personagem. Mas a cena talvez remeta também ao mais recente César Deve Morrer, dos irmãos Taviani, em que o texto do Bardo ganha vida pela boca dos presidiários de Rebibbia, a penitenciária italiana.

A ideia de base desses filmes é a de que qualquer um de nós é artista. A arte é patrimônio comum e, em condições favoráveis, qualquer pessoa encontra-se à altura das mais profundas criações do gênero humano. Significa a negação da arte enquanto privilégio de elite e afirmação da dignidade fundamental da pessoa humana – de qualquer pessoa humana, independente da classe social a que pertença. Esse é o sutil viés político de Cine Marrocos.

Aquelas pessoas, sem posses nem teto, que falam de suas origens, seus problemas e inquietações, podem também ser apresentadas ao distinto público (isto é, a nós, que vemos o filme) como criadoras de pleno direito. Para tanto, elas foram preparadas em workshops pelo ator Ivo Muller e Georgina Castro, que conduzem os ensaios. Além de Crepúsculo dos Deuses e Júlio César, são reencenados trechos de A Grande Ilusão, de Jean Renoir, Noites de Circo, de Ingmar Bergman, e Pão, Amor e Fantasia, de Luigi Comencini.

O resultado é impactante e valeu a Cine Marrocos o troféu principal do festival É Tudo Verdade de 2019.

O filme oscila, de forma equilibrada, entre as dimensões da realidade e da criação artística. Há a magia da encenação no interior do cinema degradado, que então revive com projeção de filmes em sua velha tela. E há o mergulho na realidade quando aquelas vidas são relembradas: gente que perdeu tudo e ficou na rua, imigrantes que deixaram seus países em situações às vezes desesperadas. Buscaram nova oportunidade no Brasil e terminaram na rua.

Dessa forma, o desfecho não poderia ser outro senão a intrusão final da dura realidade, a “reintegração de posse”, no universo de dimensão humanística vivido até aquele momento. A música a acompanhar a cena final não poderia ser outra senão Saudosa Maloca, samba em que Adoniran Barbosa canta o drama dos que não tem onde morar.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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