Dona Hermínia e nós

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Com a morte do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, o Brasil perde seu maior talento cômico. Sua trajetória é a de sucessos sucessivos – e surpreendentes. Fiquemos apenas no cinema, e, neste, nos três longas do seu maior êxito, Minha Mãe é uma Peça. O primeiro fez 4,6 milhões de espectadores, o segundo 9,3 milhões e o terceiro 11,6 milhões, tornando-se um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro em toda a sua história.

Dona Hermínia é inspirada na mãe de Paulo Gustavo, Déa Lúcia. Mas não é uma cópia. O ator conta que sua mãe reagiu com naturalidade ao saber que o filho era gay. Só tinha medo de que ele sofresse na rua. Mas em casa, garantiu, o afeto seria o mesmo. Já o processo de Dona Hermínia é diferente. Mais trabalhoso, difícil. O cineasta Jorge Furtado o resume com perfeição em sua página no Facebook: “A história é de uma mãe cheia de preconceitos, agressiva, autoritária, que descobre ter um filho gay, fica profundamente chocada com a descoberta, mas tem afeto de sobra para se transformar e aceita o filho. Essa fábula sobre tolerância e amor é a base de Minha Mãe é uma Peça…”

De fato, trata-se de um processo, com curva dramática, ou melhor cômica, destinada a encantar o público, como se comprova pelas gigantescas bilheterias, mesmo em tempos de relativa seca para o cinema nacional.

O fato é que a personagem revelou-se um achado. Algo, nela, estabeleceu uma ligação durável com o público. Mas quem, de antemão, poderia apostar que aquela senhora desbocada, com bobes no cabelo, gritona, falastrona e mandona, interpretada por um homem, poderia se tornar um ícone da comédia nacional?

Pode-se dizer que um dos trunfos, senão o principal, é a irreverência de Dona Hermínia. Num tempo em que a comédia parece encalacrada por pressões vindas de vários grupos da sociedade, Dona Hermínia é um sopro de liberdade. Dá a impressão de falar o que lhe vem à cabeça, sem ligar para as consequências. Claro, esta é uma ilusão da arte. Textos muito trabalhados precisam dar a impressão de serem totalmente naturais, como se saídos sem censura da boca do personagem. Há arte nisso. Inclusive a arte de esconder o esforço para se chegar ao resultado, produzindo esse efeito de espontaneidade.

Há também a técnica interpretativa do ator, de fazer a personagem falar bem rápido, quase sem dar tempo ao espectador para se distanciar. Domingos de Oliveira, um mestre dos diálogos, fazia a mesma coisa quando interpretava o que havia escrito. Talvez Paulo Gustavo tenha se inspirado nele. Em todo caso, a “escola” interpretativa é a mesma.

A forma rápida plasma um conteúdo reconhecidamente progressista. Os filmes de Dona Hermínia fogem do humor racista, homofóbico e misógino, defendido pela “gente de bem” como expressão da liberdade. Dona Hermínia, pelo contrário, pratica um humor libertário, questiona preconceitos e abre a cabeça do público para algo que é diferente dele. Isso é ser libertário. Não buscar o riso com a humilhação alheia, mas contestando o estabelecido e o consagrado pela tradição. Ao abrir caminhos, o cômico se torna liberador.

O riso, como se sabe, é assunto de primeira relevância, embora não seja levado muito a sério no país. A Academia Brasileira de Cinema teve de criar a categoria “melhor filme de comédia” para que o gênero tivesse vez na premiação anual. As chanchadas cariocas foram consideradas popularescas e de qualidade inferior até serem reabilitadas por gerações críticas posteriores. Até hoje as comédias são esnobadas, independentemente de sua qualidade. No entanto, o gênero cômico remonta à Grécia clássica, Bakhtine teorizou sobre o riso medieval, Freud escreveu um livro inteiro sobre o chiste e Machado de Assis o tinha em alta conta. Machado escreve: “Há pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso para ver o que há dentro”. Há algo de profundamente liberador no riso. Dizendo muito sobre nós mesmos, sobre nossas fraquezas e preconceitos, produz mais efeito do que se nos atirassem essas verdades à cara. Pela via cômica, a tolerância de Dona Hermínia desconcerta mais os intolerantes que qualquer discurso edificante sobre a convivência entre desiguais.

Daí que, fazendo rir, provavelmente Paulo Gustavo tenha feito mais pelo avanço da causa LGBT do que se militasse de maneira mais agressiva, como às vezes lhe exigiam. Preferia exercer o soft power que seu talento lhe conferia. Até em sua vida pessoal era exemplo de serenidade, vivendo com marido e filhos num arranjo de “nova família” que costuma escandalizar os conservadores.

No Brasil autoritário, carola e retrógrado que querem nos impingir, Paulo Gustavo era um ponto fora da curva, só que falava para multidões e era amado pelo país.Morte mais sentida pela Covid, talvez ajude a abrir os olhos para a dimensão da catástrofe em que estamos mergulhados pela indiferença e irresponsabilidade de quem deveria cuidar do seu povo. Paulo Gustavo fará muita falta, não apenas ao cinema nacional, mas ao país em seu todo.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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