É Tudo Verdade 2021: Paul Singer – uma Utopia Militante

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Enquanto Hitler desfilava em Viena, o menino de seis anos pedia à mãe uma bandeirinha nazista para se juntar aos outros garotos de sua idade que saudavam o invasor. “Você não pode”, ela disse. “Por que não?” “Porque você é judeu. E ele não gosta de judeus”. “Foi quando descobri que eu era judeu”, conta Paul Singer algumas décadas após a Anchluss, a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938. O personagem está em Paul Singer – uma Utopia Militante, de Ugo Giorgetti, atração no módulo Estado das Coisas do É Tudo Verdade.

Pouco tempo depois dessa cena, a família fugiria da Europa e teria como destino o Brasil. O garoto Paul, que todos aqui chamariam de Paulo, cresceu, tornou-se operário, interessou-se pelo sionismo socialista e virou um dos intelectuais mais respeitados do país. Militante do socialismo democrático, deu aulas na universidade, participou da fundação do PT e foi secretário de finanças durante a gestão de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo.

“Meu propósito neste filme foi apenas esse, lembrar que existiu uma pessoa como Paul Singer e ele esteve entre nós”, diz o diretor Giorgetti em entrevista a Amir Labaki no site do festival.

O filme é de fato muito simples, rigoroso e elegante. Consta de uma entrevista feita com Singer, cenas de arquivo e depoimentos de quem conviveu com ele. Num arco ecumênico, de Delfim Netto a José Arthur Giannotti, todos têm uma palavra amável a dizer sobre quem foi tão querido. Um pensador original, dizem uns. Educador inesquecível, dizem outros, mais interessado em formar seres autônomos que em cobrar informações acumuladas. Generoso, é o adjetivo unânime.

Paul Singer foi um desses presentes involuntários da Áustria ao Brasil. Soma-se a nomes como Roberto Schwarz, Otto Maria Carpeaux e outros, que, refugiados da perseguição nazista, vieram ao Brasil não para enriquecer-se mas para enriquecê-lo, fertilizando a nossa cultura.

Conhecedor do chão de fábrica, Singer foi também um ativista, tendo participado da greve de 1953, em São Paulo, que paralisou a produção por um mês. Ao mesmo tempo, como autodidata, aprofundava-se no marxismo. Integrou o grupo do famoso Seminário Marx, jovens intelectuais paulistanos que liam O Capital e tentavam entendê-lo. Era composto por gente como Giannotti, Fernando Henrique Cardoso , Fernando Novais, Octavio Ianni, Roberto Schwarz. Michael Lowy diz que Singer tinha uma vantagem sobre os outros: “Sua língua materna era o alemão; podia ler Marx no original”.

Singer escreveu diversos livros, de corte erudito, mas não desprezava a popularização do saber. Ministrou um curso de economia famoso, com aulas aos sábados, no Teatro de Arena. Mais tarde publicou as aulas no livro Curso de Introdução à Economia Política, que teve sucessivas edições, foi um best-seller acadêmico e merece uma reedição. É encontrável nos sebos eletrônicos. E, imagino, nos sebos físicos também.

Não sendo apenas teórico, Singer era um socialista prático. Acreditava que as ideias existem para mudar a realidade. Além da experiência na Secretaria de Planejamento de Erundina, ajudou a criar e chefiou a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), vinculada ao Ministério do Trabalho. Ocupou o posto desde o primeiro ano de governo Lula até 2016.

Era, como bem define Giorgetti, um iluminista. As ideias têm de se impor pela convicção, não pela força. A ideia socialista não pode depender de figuras carismáticas. Para prevalecer, precisa se mostrar melhor que o capitalismo. Em especial melhor que o capitalismo selvagem, que atende pelo nome de neoliberalismo e tem se apresentado como a única forma possível da economia.

O trabalho de Singer foi mostrar que uma outra economia é possível. Mas também que ela não virá por inércia ou desígnio divino, e sim pela ação política humana.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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