É Tudo Verdade 2021: Alvorada, o crepúsculo da democracia

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Não desejo fazer nenhuma brincadeira com as palavras, mas não vejo como definir Alvorada, de Lô Politi e Anna Muylaert, senão como filme crepuscular. Registra a intimidade da residência presidencial entre a abertura do processo de impeachment e o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff.

É um filme de observação. São raras – e breves – as entrevistas com a presidente, ou com outras pessoas. Na maior parte do tempo, as câmeras registram a solidão dos aposentos presidenciais, preenchidos por funcionários e pela (ainda) presidente, que anda de lá para cá, reúne-se com assessores e planeja sua defesa no Senado, última instância a julgar o caso.

A impressão sentida por nós no lado de fora confirma-se no lado de dentro. Era uma luta inútil, pois se tratava de um jogo de cartas marcadas, cujo resultado todos já conheciam de antemão (se essa inevitabilidade de um pseudo-julgamento não configura um golpe, não sei o como poderia ser).

Em raros momentos a presidente fala com as realizadoras. Ela é a primeira a perceber a inexistência de saída. Tudo havia sido armado – e bem armado – para esvaziar qualquer defesa possível. E, no entanto, ela não renuncia à luta. Por quê? Porque é melhor cair lutando. A derrota com resistência pode deixar uma semente, ao contrário da estéril desistência. Também é este o motivo de deixar uma equipe de cinema coabitando durante quase quatro meses com a intimidade do palácio.

Nem tudo pôde ser filmado. Às vezes, Dilma pede para a equipe se retirar, provavelmente quando tinha de discutir com sua equipe temas mais delicados. Em outras, seu incômodo é evidente. Chama a equipe de “invasiva”. Mas reconhece, também, a importância do registro, para conhecimento das próximas gerações.

O filme é hábil na construção de ambientes, de climas, sensações. O vazio e o silêncio fazem contraponto com a trilha sonora, Villa-Lobos em geral. Inevitável pensar nesses momentos “vazios” na confluência da arquitetura de Niemeyer, do projeto de Brasília de JK, das artes brasileiras presentes na decoração – de tudo isso que expressava em determinada época a confiança no destino grandioso de um país novo, livre e inovador. O contraste com o obscurantismo do Brasil de hoje chega a ser brutal.

Alguns dos raros momentos de diálogo são significativos. Dilma cita Milton, Saramago, Guimarães Rosa e Hannah Arendt para falar do Mal. Da banalidade do mal, para usar a expressão consagrada por Arendt em seu ensaio-reportagem sobre o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann.

Dilma cita livros clássicos não para ostentar erudição. A gente nota: essas leituras estão muito bem assimiladas e ela mobiliza as referências para construir uma reflexão sobre a política e o Mal. Pensa em Eduardo Cunha, por certo. Ou em Michel Temer, talvez. Não sobre o atual ocupante da presidência que, em 2016, era uma mera e improvável hipótese. Talvez ela pense em Ustra, o torturador, homenageado na sessão da Câmara que abriu o processo de impeachment. Mas Dilma não acredita no mal. Pelo menos no mal absoluto. “Somos frágeis demais para isso”, pensa. Partindo de quem foi torturada na ditadura e, na ocasião, vivia um processo de afastamento com cartas marcadas, é uma afirmação e tanto.

Depois, para falar de racismo, Dilma evoca a escravidão e o racismo estrutural. Diz que este traço brasileiro passa pela prosa genial de Machado de Assis. Cita o livro de Sidney Chalhoub, Machado de Assis Historiador. São comentários de quem leu muito, assimilou, pensou e estabeleceu conexões entre as leituras e o processo histórico. É curioso lembrar que, na construção da narrativa contra Dilma, ela tenha sido caricaturada como confusa, quase disléxica. Ao contrário, revela-se uma pessoa culta, articulada, consciente de si e do seu momento, sem um pingo de autopiedade. Uma mulher muito inteligente, presa a um labirinto histórico montado por uma invulgar confluência de forças conservadoras.

No registro do processo golpista, Alvorada junta-se a outras obras fundamentais como O Processo, de Maria Augusta Ramos, e Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Alvorada é um filme de beleza triste e produz um efeito melancólico em espectadores conscientes. Uma melancolia inevitável para quem se dispõe a suportar o torturante processo histórico brasileiro de 2013 para cá.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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