Meia dúzia de palavras sobre o Globo de Ouro 2021

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Como de hábito, a cerimônia foi longa demais, atravancada por aquele tipo de “humor de entrega de prêmios”, tradição de Hollywood, mas muito chato para quem está assistindo. Enfim, dadas as circunstâncias impostas pela pandemia – concorrentes em casa, apresentadoras uma em Nova York, outra em Los Angeles – até que o Globo de Ouro 2021 fluiu bem.

No essencial, a escolha dos vencedores, a associação dos jornalistas estrangeiros mandou bem. Primeiro, ao dar o troféu principal, o de melhor filme de drama, para Nomadland. Em seguida, por também premiar a sua diretora, a chinesa Chloé Zhao. Vencedor do Festival de Veneza de 2020, Nomadland era mesmo o melhor entre os concorrentes. Coloca em foco os filhos perdidos da recessão nos Estados Unidos, que se deslocam, de forma incessante, em seus trailers, sem pousada fixa nem destino. É um registro factual e metáfora sobre o pesadelo em que se pode transformar o famoso “sonho americano”. Pena que a atriz principal, Frances McDormand, não tenha sido escolhida. Perdeu a estatueta para Andra Day, intérprete do papel principal em Estados Unidos vs Billie Holiday.

Já o melhor filme de comédia ou musical foi Borat 2: Fita de Cinema Seguinte, no até certo ponto redundante humor cáustico vivido pelo ator Sacha Baron Cohen, aliás vencedor do troféu de ator de comédia por este trabalho.

Já na categoria drama, um prêmio póstumo foi dado a Chadwick Boseman por A Voz Suprema do Blues. Muito justo, e o discurso de sua viúva foi um dos momentos de maior emoção de toda a cerimônia.

Filmes engajados foram lembrados de maneira correta: Judas e o Messias Negro deu o troféu de ator coadjuvante de drama a Daniel Kaluuya, que interpreta o Pantera Negra Fred Hampton, assassinado aos 21 anos. A denúncia da arbitrariedade da polícia e do sistema judiciário em Os 7 de Chicago rendeu o troféu de melhor roteiro a Aaron Sorkin.

Minari – em Busca da Felicidade foi considerado o melhor filme em língua estrangeira. É uma história bonita, a saga de imigrantes da Coreia e suas dificuldades de adaptação. Falado em coreano a maior parte do tempo, é produção norte-americana e passa-se inteiramente nos Estados Unidos. Vale. Mas por que não escolher outro concorrente, de fato “estrangeiro”, em benefício da tão cultuada diversidade? Havia opções.

Quais foram derrotados? Vários, mas algumas premiações distinguem-se por ter o grande perdedor, aquele sobre o qual se depositam enormes expectativas, ao fim não cumpridas. Nesse quesito indesejável nenhum supera Mank, de David Fincher, que chegou à festa com o maior número de indicações – seis! – e saiu de mãos abanando. Pena, porque é um belo trabalho sobre o mundo do cinema e as pessoas que o fazem.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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