Buñuel & Carrière: cultivando a memória afetiva do cinéfilo

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O fã de cinema pede novidades, mas também gosta de voltar aos antigos amores. Prova disso é o sucesso da Mostra de Cinema Noir no Cine Petra Belas Artes que, pela boa resposta do público, foi prorrogada. Seguindo a mesma linha, o Petra Belas Artes já engatilhou outras três mostras tendo por temas diretores famosos e atrizes consagradas. Nesta quinta começa a primeira delas, celebrando uma das grandes parcerias da história do cinema, a de Luis Buñuel e o roteirista Jean-Claude Carrière, há pouco falecido. Em 4 de março, tem início a mostra Atrizes Premiadas em Cannes. Dia 11 de março chega a retrospectiva Almodóvar – Primeiros Anos, com foco na fase inicial do mestre espanhol.

Carrière e Buñuel formaram dupla na segunda fase francesa do cineasta. Alguns dos mais inventivos filmes de Buñuel surgiram dessa parceria. A começar pelos dois primeiros a serem apresentados – O Fantasma da Liberdade (1974) e O Discreto Charme da Burguesia (1972). Um é composto por esquetes cômicas em torno do tema da liberdade, essa linda palavra que anda em tantas bocas sujas. O segundo mostra como um grupo de senhores e senhoras bem postos na vida jamais conseguem chegar ao término daquilo que começam, seja uma simples refeição, seja um ato sexual. Ambos são muito cômicos. Mas a comicidade é crítica, irônica, corrosiva, como convém a um ponta de lança do surrealismo como Buñuel.

A Via-Láctea (1979) mostra dois andarilhos que percorrem o Caminho de Santiago e se deparam com as mais estranhas formas de heresias. Como se refizessem uma história absurda – e satírica – do catolicismo e suas variantes ao longo dos séculos. Carrière conta que, para escrever o roteiro, ele e Buñuel se trancafiaram num hotel tendo como fonte de pesquisa apenas um grosso tratado sobre os heresiarcas da Igreja. Diz que deram boas risadas ao longo do trabalho.

Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977) é o último filme de Buñuel, que morreria em 1983. É, também, um dos ápices da sua cinematografia, com o personagem envelhecido (Fernando Rey) tentando seduzir uma moça reticente. O detalhe genial é a personagem feminina ser interpretada por duas atrizes – a espanhola Angela Molina e a francesa Carole Bouquet – cada qual com traços de personalidade opostos. Um estudo sagaz sobre o desejo humano e a fragilidade masculina, com desfecho inquietante mas nunca despido de humor.

A Bela da Tarde (1967) é outra colaboração famosa da dupla, adaptando um romance de Joseph Kessel. O papel principal coube a uma magnífica Catherine Deneuve como a mulher burguesa e casada que se prostitui no período vespertino. O filme foi sucesso na época e muito se discutiu sobre as motivações ocultas da bela Sévèrine, a personagem de Deneuve. Michel Piccoli tem papel de relevo na obra. Muitos anos depois, Manoel de Oliveira fez uma espécie de remake póstumo de A Bela da Tarde, chamado de Bela para Sempre (Belle Toujours, 2006), em que os personagens de Deneuve e Piccoli se reencontram na velhice. Piccoli interpreta a si mesmo; Bulle Ogier vive Catherine, que recusou o papel e deve ter se arrependido.

O primeiro ítem da parceria, o notável Diário de uma Camareira (1964), tem Jeanne Moreau como Célestine, a criada de uma casa no campo assediada por outro empregado, Joseph (Georges Géret). Tirado de um romance de Octave Mirbeau, é uma análise fina das taras familiares burguesas, que Buñuel examina com olhar de entomologista. Uma curiosidade no elenco – o próprio Jean-Claude Carrière, ator ocasional, faz o papel de um padre. Foi o primeiro filme de Buñuel rodado na França desde o sulfúrico L’âge d’Or (A Idade do Ouro, 1930) que, junto com Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz, 1928), fez a fama escandalosa do então jovem surrealista.

Para março, mês internacional da mulher, o Belas Artes bolou uma mostra bastante diversificada de oito longas, Atrizes Premiadas em Cannes. Entram na homenagem Giulietta Masina (Noites de Cabíria, 1957), Isabelle Huppert (A Professora de Piano, 2001), Meryl Streep (Um Grito no Escuro, 1988), Isabelle Adjani (Rainha Margot, 1994), Brenda Blethyn (Segredos e Mentiras, 1996), Émilie Dequenne (Rosetta, 1999) e Sophia Loren (Duas Mulheres, 1960).

Boa ocasião para rever a sublime Masina, cujo centenário se celebrou no último dia 22. Companheira de vida toda de Fellini, trabalhou em inúmeros filmes do maestro. Cabíria é um dos mais comoventes.

Dignas de destaque, também, Isabelle Adjani num trabalho de possessão como a rainha Margot, sob direção de Patrice Chéreau. Sophia Loren, em um dos seus trabalhos mais notáveis, imortaliza o drama de guerra Duas Mulheres, de Vittorio De Sica. Ninguém conhecia Émilie Dequenne até ela ser lançada pelos irmãos Dardenne como Rosetta, a sofrida personagem desse drama social. Isabelle Huppert é incrível em A Pianista, assim como Meryl Streep e Brenda Blethyn em seus papéis. A seleção de filmes é uma ótima amostragem da força da interpretação feminina no dispositivo cinematográfico.

De 11 a 17 de março, o Belas Artes realiza a mostra Almodóvar – Primeiros Anos. Como o nome diz, refere-se à fase inicial do cineasta manchego. Fase tida por muitos críticos como a mais radical e, talvez, a mais inventiva do diretor. A mostra compõe-se de títulos bastante conhecidos e outros menos: Maus Hábitos (1983), Que Fiz Eu para Merecer Isto? (1984), A Lei do Desejo (1987), Ata-me (1989), Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) e Kika (1993).

O Almodóvar dos anos 1980 talvez seja a melhor expressão dos anseios de liberdade de um povo que havia vivido por 40 anos sob a ditadura franquista. A Espanha repressiva, enlutada pela Guerra Civil, moralista e carola ficava para trás. Com a descompressão, surgia a “movida” madrilenha, com seus contestadores desbocados, ousados e agressivos. Almodóvar era a face mais visível do movimento. Seus filmes continham personagens pouco antes impensáveis como freiras lésbicas que escondem cocaína em crucifixos ocos. Jogando com tramas inventivas e improváveis, dentro de uma estética que renova o melodrama, Almodóvar punha o cinema espanhol de cabeça para baixo. Suas personagens femininas fortes conquistaram o mundo e puseram no mapa a trupe favorita do diretor: Carmem Maura, Victoria Abril, Marisa Paredes e Antonio Banderas, entre outros. Esses filmes libertários são uma espécie de antídoto aos tempos caretas em que vivemos.

Publicado por Luiz Fernando Zanin Oricchio

Luiz Fernando Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo. Escreve para O Estado de S. Paulo desde 1990. É crítico de cinema do jornal e escreve, de forma esporádica, sobre outros temas. Mantém blogs no Portal do Estadão (de Cultura e Futebol) e também blogs independentes. Tem contas no Facebook (Luiz Zanin) e no Twitter (@lzanin). Ver todos os posts por Luiz Fernando Zanin Oricchio

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