Blonde: a voz íntima de Marilyn Monroe

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Isto não é uma biografia. Desde o início, Joyce Carol Oates deixa claro o que seu livro não pretende ser. Não lhe devem cobrar nomes precisos, dados de vida pesquisados a fundo, depoimentos “objetivos” ou análises de caráter sobre a personagem. Mas então o que é Blonde? Talvez um romance de invenção, talvez um ensaio ficcional sobre Norma Jeane Baker, depois conhecida como Marilyn Monroe. Talvez ambos.

Toda vida, qualquer uma, é de uma complexidade angustiante. Ainda mais a de uma pessoa pública, que sai do nada, vira uma superestrela durante cerca de 10 anos e morre jovem, aos 36. Quem foi Marilyn Monroe? – é a pergunta irrespondível que funciona como motor interno da obra da escritora.

O projeto é ambicioso ao extremo. Muito mais do que se propusesse a chamada “biografia definitiva” da atriz. Oates quer ir além. Deseja sondar não apenas os fatos exteriores da trajetória de Marilyn, mas nada menos que a sua subjetividade. A sua verdade interna, por assim dizer.

Nesse processo de descida (ou subida) à subjetividade de uma persona pública, Oates usa quase o tempo todo o recurso do monólogo interior. O romance (vamos chamá-lo assim) transcreve o que pensa Norma Jean de tudo o que lhe acontece, das pessoas que conhece, dos pequenos e grandes fatos, e, sobretudo, de si mesma. É como virar a personagem ao avesso e fazê-la pensar em voz alta uma vida interior que todos, ilusoriamente, imaginam conhecer.

Dessa forma, os fatos externos, ainda que importantes, funcionam apenas como marcas do caminho, formando uma espécie de esqueleto imperfeito daquela alma em transe. Seriam como referências “factuais” dessa vida interna em ebulição que a escritora supõe em Norma Jean. Esses fatos balizam a trajetória, em esboços rápidos. A infância com a mãe instável, Gladys. O pai desconhecido, mas a menina é induzida a pensar que se trata de figura importante em Hollywood. A internação de Gladys numa clínica psiquiátrica, a filha enviada para um lar de órfãos. A mãe que não permite a adoção definitiva, forçando a adoção temporária por um casal. O casamento precoce e rapidamente encerrado pela guerra. A dificuldade de sobrevivência, as fotos de calendário, nuas, que lhe permitem pagar as contas, precariamente. As primeiras chances em Hollywood. O traumático abuso sexual sofrido por um produtor. Algumas aparições rápidas em filmes e um papel um pouco maior – mas já marcante – em uma das obras-primas de John Huston, O Segredo das Joias (1950). Em seguida, dois papeis de protagonista em Almas Desesperadas (1952) e Torrentes de Paixão (1953). Este, em particular, a transforma em celebridade nacional. Estrela polêmica, capaz de despertar o desejo dos homens e a ira de ligas femininas, que a denunciam como “imoral”.

O primeiro volume de Blonde se detém nesse ponto. Marilyn interpreta a fatal Rose Loomis em Torrentes de Paixão e vive, à trois, um romance com dois rapazes filhos de celebridades, Charlie Chaplin Jr. e Eddy G (filho de Edward G. Robinson).

A ideia do livro surgiu quando Joyce Carol Oates viu uma foto de Norma Jeane Baker aos 15 anos, radiante e virginal, com uma coroa de flores no cabelo castanho e um medalhão no pescoço. Como essa garota iria se transformar na diva sexy e lasciva, de voz ciciante e seios fartos, objeto de desejo do sexo masculino e de desprezo e inveja do gênero feminino?

Diz a escritora para seu biógrafo, Greg Johnson: “Senti a sensação imediata de uma espécie de reconhecimento; esta jovem, cheia de esperança, tão americana, evocava uma imagem muito poderosa das garotas da minha infância, algumas delas com lares caóticos”. Norma Jeane poderia ter sido uma garota americana qualquer, com um destino banal pela frente: lar, marido e filhos. Não foi assim. E por que não? Eis o mistério.

De fato, como imaginar um destino tão invulgar? E, no fundo, tão trágico? Dessa subjetividade imaginada, emerge uma personalidade tão poderosa como frágil. Capaz de abrir caminho em circunstâncias muito desfavoráveis, tendo de enfrentar o ambiente machista tóxico em que a oportunidade profissional se paga com o próprio corpo. Garota ingênua mas leitora de Stanislawski, Freud e Kierkegaard. Capaz de entender suas personagens melhor que o cineasta John Huston e Louis Calhern, o veterano ator shakespeariano com quem contracena em O Segredo das Joias. Cheia de inibições e complexos e, no entanto, apta a exercer com alegria a liberdade sexual descoberta após anos de repressão.

Esta é a Marilyn imaginada por Joyce Carol Oates. Uma espécie de símbolo da América, mas também a sua negação. Uma criatura sensível e inteligente, avesso do estereótipo de loira burra, lasciva e destruidora de lares. Retrato verdadeiro ou não, mas muito convincente e poderosamente escrito, Blonde nos reaproxima de Marilyn, e a coloca em outra perspectiva. Passamos a vê-la com outros olhos – e isso não é pouco.

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