Cine Ceará 2019: Notícias do Fim do Mundo e Ressaca

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FORTALEZA – O cineasta Rosemberg Cariry brinca: “me chamam sempre de barroco; então resolvi radicalizar e fazer um filme transbarroco”. Esse objeto cinematográfico não identificado atende pelo nome de Notícias do Fim do Mundo e pousou ontem num Cine São Luiz perplexo com a obra que batia na tela. Apesar da estranheza – ou talvez por isso mesmo – o filme foi bastante aplaudido no final. A sensação de absurdo crescente na atual sociedade brasileira talvez beneficie a recepção de obras que falem da distopia em que nos metemos. E este é bem o caso deste que é o 12° longa-metragem do diretor cearense.

A trajetória de feitura do filme também é fora dos padrões. Notícias do Fim do Mundo foi rodado há nove anos e, desde então, seu diretor foi acrescentando temas e outros trechos, ao sabor de sua inspiração e do que ia se passando pelo mundo. O núcleo desse work in progress fala de um país fictício, Jenipapoaçu, no qual o embaixador de outro país, o poderoso Golem, é sequestrado por um grupo de reisado. Bem, dito assim, é de assustar e confesso que também fiquei com medo ao ler a sinopse.

Acontece que o filme, em si, é bem melhor do que parece. De fato, essa alegoria é construída um pouco como história de ação (que até vira videogame), com o sequestro em um ônibus, e o cerco das forças de Golem, com helicópteros e exército tentando resgatar o refém. Enquanto isso, uma montagem rápida vai nos levando a outros espaços e sensações, através do verdadeiro bombardeio de sons e imagens que expressam o tom caótico e fragmentado de nosso tempo. Há imagens contemporâneas, coladas a outras de arquivo, como as dos mestres soviéticos Eisenstein e Pelechian, somadas a obras nacionais de autores como Luiz Rosemberg Filho. Há nele um impulso juvenil como não se viu em outras obras de Rosemberg Cariry. Lembra um pouco, em outro registro, a raiva e a invenção dos filmes do assim chamado Cinema Marginal. Lembre-se que essa vertente do cinema surgiu numa época também de desespero, quando, no pós AI-5, o Cinema Novo já não mais respondia às necessidades de simbolização da falta de saídas e do sufoco. Parece que entramos numa época parecida, pelo menos em termos de sensação, e o cinema está começando a responder a essa necessidade estética.

O filme me pareceu, entre outras coisas, e no momento mesmo em que o estava vendo, uma reflexão radical e sofrida, sobre a História, sobre seu sentido problemático ou sobre sua absoluta falta de sentido. James Joyce dizia que a História era um pesadelo do qual não conseguia despertar. Tenho a impressão de que qualquer brasileiro de bom senso hoje concordaria com ele. Mas a fragmentação histórica proposta pela obra de Cariry parece até mais intensa, embora ele diga, em entrevista, que não perde a esperança. Ou seja, que o filme não aponta para uma situação de falta de saída. De fato, as últimas imagens parecem apontar para uma fresta de luz, ainda que tímida. No entanto, uma das imagens finais, e que ressignificam o que víramos até então, mostra uma imagem famosa – o Angelus Novus, aquarela de Paul Klee que pertencia a Walter Benjamin.

Benjamin, que se suicidou em 1940 ao não conseguir atravessar a fronteira entre a França e a Espanha, fugido do nazismo, adorava essa imagem. E dela fez um ícone para sua reflexão sobre a História. Veja o quadro, leia o trecho de Benjamin. E, sim, quando o filme entrar em cartaz, não deixe de vê-lo.

Walter Benjamin:

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

Ressaca

Em tom bem mais sóbrio, e em registro realista, o documentário Ressaca também comenta o desmonte do Brasil. A partir de um caso particular – a lenta e contínua asfixia a que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro é submetido – alça voo para uma interpretação geral do estado do País.

A dupla de documentaristas – a brasileira Patrizia Landi e o francês Vincent Rimbaux – acompanham a luta do Corpo de Baile do Municipal para não ser sucateado. Com os salários atrasados meses a fio, e espetáculos cancelados, os bailarinos são obrigados a aceitar cotizações para cestas básicas. No auge do desespero, apresentam-se na rua, em praças, ou nos sinais de trânsito, para mostrar que apesar de tudo estão vivos. Que a arte está viva e não existe nação sem a sua arte. Essas são as sequências mais comoventes do filme.

Ressaca acompanha mais de perto três personagens – a bailarina que, sem condições de trabalho, troca o Rio por Salzburgo e faz sucesso na Europa; um bailarino de talento que dirige um carro para a Uber para sobreviver com a família. E um velho funcionário do Municipal, o porteiro, seu João, que mora na periferia e não consegue ver sentido na vida fora do seu trabalho no teatro.

Filmado em preto e branco, Ressaca dispensa entrevistas com os personagens. Os diretores optam por um cinema de observação e registram situações diversas sobre os efeitos de um estado falido sobre pessoas e instituições. Entre elas, imagens dos bastidores do teatro e cenas violentas de manifestações reprimidas pela polícia no centro do Rio. Ao lado da solenidade da Carmina Burana e da delicadeza dos pas de deux, o País pega fogo.

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