Mostra 2019: Três Verões

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Luiz Zanin Oricchio

Há uma relação entre a Val de Que Horas ela Volta e a Madá de Três Verões – além do fato de ambas serem interpretadas por Regina Casé? No filme de Anna Muylaert, Val é uma doméstica de início conformada, que recebe em casa sua filha rebelde vinda do Recife. Madá ocupa cargo mais alto: é uma espécie de governanta da mansão à beira-mar de uma família carioca influente. Mas ambas são trabalhadoras domésticas. As duas estabelecem um tipo de relacionamento assimétrico com seus patrões, no estilo de sociedade de classes à brasileira em seu formato Casa Grande & Senzala.

Que Horas Ela Volta? mira o fenômeno da ascensão da classe C nos governos Lula, com estudantes pobres disputando vagas na universidade com seus colegas ricos ou de classe média, graças às políticas de inclusão. Em Três Verões, estuda-se o virar dessa página emancipatória com a chegada do terremoto político causado pela operação Lava-Jato.

Em Três Verões, Sandra Kogut mostra os efeitos dessa instabilidade nas classes populares. O ambiente é o da burguesia chique do Rio de Janeiro, representada pelo casal Edgar e Marta (Otávio Muller e Gisele Fróes), que costuma receber os amigos na mansão de Angra dos Reis. Madalena, ou Madá (Regina Casé) é a regente do corpo de funcionários – faxineiros, cozinheiras, motoristas, porteiros, etc – que trabalha para o casal.

Boa empreendedora, Madá alimenta também um sonho pessoal, o de estabelecer-se com um quiosque e ganhar dinheiro. Precisa comprar o terreninho onde se encontra o quiosque e, para tal, precisa de um empréstimo do patrão. Ele vem, de maneira surpreendente. Edgar propõe comprar o velho telefone celular de Madá, exatamente pelo dinheiro que ela precisa para dar entrada no terreno. Um negócio da China, pelo menos é o que parece a princípio.

Como sugere o título, a história se desenvolve em três verões sucessivos – os de 2015, 2016 e 2017. Tempos de convulsão política no país, porém pela ótica do, digamos assim, “andar de baixo” da sociedade. Se o primeiro verão do filme é marcado pela opulência, pela sensação de que o dinheiro corre fácil, o que falar do segundo e do terceiro verões, quando os patrões somem, justamente com os convidados de sempre, e a mansão fica ao deus-dará?

É então que entra o espírito empreendedor de Madá, que tenta manter a casa em funcionamento, das maneiras as mais criativas, chegando a alugá-la como set de filmagem de comerciais. Ou promovendo tours de barco para mostrar aos curiosos as outras mansões abandonadas por seus patrões estarem “ocupados” pela operação policial.

Ao mudar a ótica de abordagem, e entregar o protagonismo a Regina Casé, Sandra Kogut escolhe o registro cômico para abordar essa tragédia política à brasileira. Com o país indo para o abismo, só o humor de Madá parece fornecer aquela famosa luz no fundo do túnel. E esta seria a infindável capacidade de improvisação do povo brasileiro, seu sentido de invenção, a técnica conhecida de fazer do limão uma limonada. Sem Casé, o filme seria outro. E não teria essa luz em que a atriz é pródiga ao interpretar – de coração – os tipos populares. Ou seja, o que de melhor existe no Brasil, a sua verdadeira elite.

O legado de Tarkovksy

Outra pedida boa é Andrey Tarkovsky: uma Oração de Cinema, documentário dirigido pelo próprio filho do grande cineasta russo. No filme, percorre-se a carreira de Tarkovksy (1932-1986) através de sua narração em off, gravada em inúmeras entrevistas, e ilustrada por trechos de filmes ou registros domésticos.

Tarkovsky é revisitado através dos seus filmes, A Infância de Ivan, O Espelho, Solaris, Stalker, e os feitos no exílio, Nostalgia e O Sacrifício. A busca pelo poético, pelo simbólico e pelo espiritual estabelece um distanciamento crescente entre o artista e a estética oficial da então União Soviética. Tarkovsky afasta-se do realismo e parte para uma dimensão francamente religiosa, no sentido mais amplo, na qual a busca pelo transcendente passa a ser a sua aspiração máxima, e único sentido da arte, conforme ele a entende. Seus ícones máximos no campo artístico deixam claro o que ele pretende com seu cinema: Leonardo Da Vinci, Bach, Tolstói, Bresson. São artistas do sublime. Assim como Tarkovsky tentou ser e conseguiu em diversas de suas obras. Atingir a dimensão metafísica e filmar aquilo que não se vê. Em particular, a inexorável passagem do tempo, que ele coloca em contraste com a imortalidade da alma e a crença em um ser superior.

Documentários brasileiros

Passagens e O Mês que Não Terminou têm em comum o fato de seus autores serem pessoas mais acostumadas ao trabalho teórico que ao manejo das câmeras. Em Passagens, os professores Lúcia Nagib e Samuel Paiva estudam os efeitos benéficos ao cinema vindos do diálogo com outras artes, tais como a música e a literatura. Em O Mês que não Terminou, o filósofo Francisco Bosco e o artista plástico Raul Mourão buscam nas manifestações de 2013 o solo de compreensão para a distopia brasileira atual. Dois filmes indispensáveis.

Fonte

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