Vozes da Floresta e Vagalumes

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FORTALEZA – Vozes da Floresta fala da lutas sociais de indígenas, quilombolas, ribeirinhos e quebradeiras de coco. No belo documentário, dirigido por Betse de Paula, há um traço de união entre essas vozes – todas elas são femininas, fortes, convictas, experientes e conscientes na condução e nos perigos de lutas sociais, demonizadas por este e outros governos. Estiveram no Ceará a própria diretora e as lideranças femininas Nice Machado (quilombola), Dorinete Moraes (de Alcântara) e Rosenilde Costa (quebradeira de coco de babaçu).

O documentário tem feitio convencional, porém é muito impactante ao mostrar o cotidiano e a fala dessas mulheres. Além das presentes, há imagens das lideranças famosas, como a indígena Sonia Guajajara, que foi candidata a vice-presidente na chapa de Guilherme Boulos (PSOL).

Impressiona o sentido histórico da fala dessas mulheres, em particular de Nice Machado, que destaca a opressão dessas populações desde a colonização. Falam, também, das esperanças não cumpridas pelos governos de esquerda, de Lula e Dilma, e reconhecem que, durante esse período, comentaram o erro de esperar demais dos governos e se desmobilizaram. Diante de um inimigo tão nítido quanto o atual governo, voltaram a se unir.

As ativistas falam de suas lutas específicas e o documentário tem esse mérito, o de trazer à luz uma parte da realidade nacional em geral desprezada pelos meios de comunicação – eles só se fazem presentes quando existe conflito e morte nessas regiões. Mas não se ocupam do processo de sobrevivência e consolidação de conquistas dessas populações.

O documentário nos dá esse quadro, digamos assim, factual, ouvindo esse lado historicamente negligenciado. Mas, à parte as informações, a impressão geral que fica é a da força dessas lideranças. Elas dizem, de forma unânime, que suas lutas são de longo prazo e que não vão desanimar, nem mesmo diante das promessas de violência do status quo. Pelo contrário, é na dificuldade que esperam crescer.

Luciérnagas

A palavra quer dizer “vaga-lume”. O filme, apesar de mexicano, é dirigido por Bani Khoshnoudi, iraniana radicada no México. Ela esclarece. O título foi inspirado num texto famoso de Píer Paolo Pasolini, O Vazio do Poder na Itália, conhecido como “o artigo dos vagalumes). O ensaio, no qual Pasolini fala do novo fascismo e da resistência dos pirilampos, é retomado no livro Sobrevivência dos Vagalumes, do filósofo francês Georges Did-Huberman, já publicado no Brasil.

A história de Luciérnagas é a de Ramin, jovem iraniano que sai do seu país pela perseguição aos gays, e chega ao México depois que seu navio mercante, tomado em na Turquia, vai bater no porto de Veracruz.

O filme é bastante interessante na maneira como capta o ambiente – ruídos inclusive – de uma cidade portuária, locais de chegada e partida, fronteiriços, que mesclam pessoas de origens diferentes e que lá estão de passagem. É um mundo provisório, ambíguo, talvez ideal para situar um personagem em crise como Ramin. Ele deixou um relacionamento para trás em seu país, tenta voltar para a Turquia, de onde partiu, mas não tem dinheiro para a viagem. Conhece outro rapaz, um mexicano que deseja ir para Los Angeles. E faz amizade com a jovem dona de uma pousada onde se hospeda. Todos querem ir embora de Veracruz.

A cidade mexicana, na verdade, torna-se um personagem do filme, e não secundário. Tudo é filmado em panorâmica, em nostálgico (mas não muito, segundo a diretora). Seria totalmente abusivo rotulá-lo como “filme gay”. É muito mais uma obra sobre a errância, a imigração e a solidão. Muito bonito e sensível, oposta numa linguagem narrativa que não entrega tudo de bandeja ao espectador. O passado do personagem principal se revela aos poucos, e não tudo, e sempre de maneira alusiva. O desejo de fuga é compreensível mas precisa ser deduzido por quem assiste ao filme. Assim como a busca desse problemático “lugar no mundo”, que é sempre em outra parte e nunca onde se está. Todos querem, de certa forma, sair de Veracruz.

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