Cine Ceará 2019: A Vida Invisível

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FORTALEZA – Venho há mais de 20 anos ao Cine Ceará e não me lembro de sessão de abertura tão vibrante quanto a deste ano. Houve política, homenagens a quem merece e a emoção de um filme terno e tocante – A Vida Invisível, de Karim Aïnouz.

A sessão era tão prestigiosa que lá estiveram o governador do Estado do Ceará, Camilo Santana, Ciro Gomes e Fernando Haddad – que trocaram um aperto de mãos, renovando as esperanças de uma união das oposições para enfrentar a distopia bolsonárica. Estudantes e professores abriram faixas na plateia e se uniram às manifestações pedindo a saída do interventor da Universidade Federal do Ceará. Sobrou também para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que não parece muito benquisto no meio universitário.

Entre os políticos, Ciro foi bem aplaudido, mas Haddad foi consagrado, talvez uma amostra de que seu potencial eleitoral no Nordeste continua intacto.

Na parte artística, Karim foi o consagrado, junto com Fernanda Montenegro. Karim tornou-se glória local ao ser premiado na seção Un Certain Regard (Um Certo Olhar) em Cannes, com seu A Vida Invisível, tirado do romance de Martha Batalha, a Vida Invisível de Eurídice Gusmão. E, em seguida, ainda foi indicado para representar o Brasil na disputa do Oscar de Filme Internacional.

Fernanda Montenegro é atriz do filme. Faz Eurídice Gusmão idosa. Fernanda deu um show no palco. Leu trecho da carta em que o diretor a convida para o filme, apresentando-a à personagem. Fernanda lendo uma carta transforma o texto em Shakespeare puro. É tocante. Ainda mais, quando olha para a plateia e, vendo seu entusiasmo, limita-se a comentar: “O Brasil vai dar certo”. Tudo está aí, nas entrelinhas e na entonação. Os usurpadores vão passar. Deixarão, quem sabe, um rastro de destruição, mas o país sobreviverá porque é melhor e maior do que eles.

Enfim, a noite teve um sentido de pajelança para afastar maus espíritos e exaltação da inteligência e da beleza como armas de resistência. Formas de “adiar o fim do mundo” que se anuncia diariamente, em vagas vindas de Brasília.

Para finalizar, o filme em si é nada menos que encantador. Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) são duas irmãs que vivem no Rio de Janeiro dos anos 1950. Eurídice quer se tornar pianista de concerto. Guida busca o grande amor. Ambas se equivocam e terminam por se desencontrar uma da outra, embora nutram grande amor recíproco.

A essência da história é feminina. Mulheres movendo-se penosamente num mundo machista e tentando ser algo mais que mães de família e donas de casa, submissas ao seu provedor e senhor. É, a seu modo, uma história de luta e resistência. A levada é em tom de melodrama, seja pelo ambiente emocional, seja pela própria abundância de música, seja por um entrecho que, fora do contexto, poderia ser acusado de folhetinesco.

Nada disso importa se conseguirmos nos identificar a essas duas moças tão unidas que, no entanto, seguem vidas paralelas. Nos talvez 15 minutos finais, entra em cena Fernanda Montenegro como Eurídice aos 80 anos, e então o filme parte para a imensidão azul, e nós seguimos com ele. É quase uma coda, um desfecho, que dá outro significado a tudo o que vimos anteriormente. Muito emocionante. E, apesar de ambientado em grande parte nos anos 1950, fala de hoje, da questão da opressão às mulheres, ainda não resolvida apesar de todos os avanços já feitos.

Não sei se A Vida Invisível tem “jeito de Oscar”, justificativa da comissão da Academia de Cinema para escolhê-lo como representante do Brasil. Mas sei que vai tocar muito o público brasileiro, mulheres e homens que, neste momento de política geral de embrutecimento, precisam mais do que nunca de sensibilidade e empatia para seguir vivendo.

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